Temperamento e comportamento – parte II

Temperamento e comportamento – parte II

A nossa intenção deverá ser educar estimulando os comportamentos adequados e não pela via do castigo que, quando em excesso, também se torna contraproducente.


    Tal como foi falado na semana passada, a Educação é um processo contínuo que decorre por etapas que terão de ser adequadas aos diferentes estádios de desenvolvimento da criança. No entanto, qualquer que seja a idade da criança, para que a disciplina seja eficaz é importante ter em atenção 3 aspectos fundamentais:
  • O ambiente familiar deve ser tranquilo de modo a transmitir calma e segurança à criança;
  • Os comportamentos adequados devem ser estimulados e incentivados;
  • Os comportamentos desadequados devem ser desencorajados e repreendidos.

Na semana passada abordei o comportamento e temperamento da criança até aos 24 meses. Esta semana vou referir-me fundamentalmente à criança com mais de 2 anos.

Nunca nos poderemos esquecer que os pais funcionam como modelos para os filhos pelo que o seu comportamento serve de exemplo e a criança tende a imitá-lo. Os gestos e as atitudes dos pais revestem-se de uma importância fundamental para o comportamento da criança, sendo fundamental que se estabeleça uma relação de confiança e amizade entre todos.
É muito importante que seja dada a atenção à criança, não sendo no entanto necessário que esta seja sempre o centro das atenções. Os pais devem mostrar-se interessados pelas actividades da criança – nomeadamente se a criança já frequenta a escola é importante falar sobre o dia e sobre as actividades na escola. É importante frisar que mais do que a “quantidade” é importante a “qualidade” do tempo que passamos com os nossos filhos. Se tem mais do que um filho tente de vez em quando ter um tempo a sós com cada um – por pouco que seja é o momento que é só dele e é extremamente importante!
É fundamental manter uma rotina diária no que se refere aos comportamentos e só assim será possivel a criança perceber quais as atitudes que serão adequadas - não adianta tentar manter a sua vontade já que sabe à partida que não terá sucesso.
A coerência é uma peça fundamental no processo de disciplina, a reacção dos pais deverá ser sempre a mesma Não poderá haver ambiguidades pois a criança assim não saberá como lidar com a situação . Nos dias de hoje, em que os pais vivem em constante stress, muitas vezes agem de modo diferente consoante chegam a casa mais ou menos cansados – se estão mais disponíveis mantêm as rotinas e não facilitam os comportamentos desadequados, mas se estão mais cansados pensam “é só hoje…” e o facto é que a criança vai tentar sempre conseguir fazer o que quer pois sabe que muitas vezes consegue. Este comportamento não transmite segurança nem tranquilidade à criança. Muito pelo contrário, ficará mais ansiosa, não entendendo porque é que umas vezes consegue os seus objectivos e outras vezes não e será certamente motivo de situações de conflito interno que se irá manifestar por birras e comportamentos agressivos. No entanto tal não significa que não possa haver alguma flexibilidade em determinadas situações pontuais, ainda que seja importante que a criança perceba que se trata de uma excepção.

Também é importante frisar que não podemos exigir da criança comportamentos que não está habituada a ver nos pais – como por exemplo obrigar a criança a arrumar os brinquedos após acabar de brincar se esta percebe que o pai ou a mãe têm constantemente as suas coisas desarrumadas nomeadamente no quarto ou no escritório; ou ficar sentada à mesa durante a refeição quando a criança vê o pai ou a mãe a levantarem-se constantemente para falar ao telemóvel ou para ver uma notícia na televisão. Nunca nos podemos esquecer que os pais funcionam como modelo pelo que o seu exemplo é fundamental para o sucesso da disciplina que querem transmitir aos filhos.

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Como estimular os comportamento adequados?!
Os pais devem ser companheiros - rir, brincar, estimular o espírito de grupo, promover a autoestima e a autoconfiança da criança. No entanto, as regras relativas aos comportamentos que são esperados deverão ser bem explicados à criança de modo a que esta entenda o que se espera dela, sobretudo quando a criança já tem capacidade para entender o que lhe é dito. Como é evidente, os comportamentos exigidos à criança terão de ser de acordo com a idade - não podemos exigir aquilo que ela não será capaz de fazer.
Há que dar oportunidade à criança de poder escolher entre 2 caminhos, explicando as vantagens e eventuais consequências de cada um deles e deixando que tome uma decisão consciente. Por exemplo, se mandou arrumar os brinquedos e a criança não vai, poderá dizer que a criança tomou a opção e já sabe qual será a consequência. Também deverá antecipar os maus comportamentos – se sabe que há birra quando vai às compras porque quer sempre comprar qualquer coisa, será melhor conversar antes e com firmeza explicar que não adianta fazer birra porque não irá ceder a qualquer chantagem. Deve elogiar a criança quando se porta bem – contribui bastante para melhorar a autoestima e o desejo de agradar aos pais.
É muito frequente na consulta dos 3 anos os pais queixarem-se de que é muito difícil o filho obedecer, que está constantemente a medir forças – é birra para se vestir, para tomar banho, para ir para a mesa, para se deitar...tudo é motivo para criar conflito.
Costumo conversar com os pais e, para além de tudo o que já falei, aconselho-os a fazerem um jogo dos reforços positivos, à semelhança do que acontece nos infantários ou na escola. Os pais e a criança fazem em conjunto um calendário com os dias da semana, no qual a criança diariamente irá colocar um símbolo que traduz o seu comportamento desse dia – por exemplo, se não fez birras, se cumpriu as rotinas sem problema, poderá pintar uma bola verde ou uma carinha a rir; se se portou mal terá de pintar uma bola vermelha ou uma carinha a chorar. Se conseguir preencher 5 dias seguidos sempre com bom comportamento terá direito a um pequeno presente que já foi antecipadamente estipulado. Mas atenção – só poderá ter esse mesmo presente se não tiver havido nenhum dia com mau comportamento – só assim poderá funcionar!

Como eliminar os comportamento indesejáveis?
Apesar de não ser certamente a maneira ideal de levar a criança a ter comportamentos adequados, o castigo por vezes é a única forma da criança perceber quais os seus limites. É fundamental que a criança entenda claramente a mensagem que lhe é transmitida - tem de perceber o que fez de errado e quais as consequências do seu acto. Quais os castigos possíveis? Terão de ser adequados a cada idade e de acordo com o comportamento. A reprimenda é o mais simples mas deverá ser firme e segura, o tom de voz não terá de ser aos gritos mas deverá mostrar à criança que agiu mal e que o seu comportamento está a ser criticado e a mãe ou o pai estão zangados.
Se não resulta então terá de avançar para o castigo. Numa criança com mais de 2 anos que geralmente já entende que agiu mal, o ficar sentado num banco representa uma verdadeira tortura, num local sem distracções e sozinha. O tempo terá de ser adequado à idade - enquanto que numa criança de dois anos 2 minutos são uma eternidade, numa de cinco anos já terá de prolongar para 5 a 10 minutos para obter o mesmo efeito. Não pode deixar que a criança saia do castigo, caso contrário nunca mais terá esta “arma” ao seu alcance - se a criança se apercebe de qualquer esboço de indecisão será um trunfo a seu favor. Se necessário fique com a criança ao colo de modo a que não possa sair do local sem falar com ela e mostrando-se zangada até acabar o tempo. Só depois poderá conversar com ela sobre o seu comportamento e avisar que da próxima vez acontecerá o mesmo. Este tipo de castigo tem efeito a longo prazo mas não pode desistir à mínima resistência da criança!
Outro tipo de castigo que pode ser aplicado a crianças mais velhas, geralmente após os três anos, consiste em retirar previlégios – não ver televisão, não contar a história para adormecer, não ir ao parque, a uma festa de anos, retirar a consola ou o telemóvel. Claro está que o castigo terá de ser adequado ao tipo de falta que a criança cometeu, de modo a não se ser demasiado severo, mas também não brando demais. Fundamentalmente não se deverá prometer o que não se pode cumprir, o que irá desvalorizar toda a sua atitude.

E a palmada?!
Poder-se-á dizer que não há nenhuma criança que não tenha levado uma palmada em determinada fase da sua vida. Por mais que se considere anti-pedagógico, sabemos que muitas vezes as crianças levam os pais à exaustão e muitas vezes estes acabam por bater na mão ou no rabo para manter a sua autoridade. No entanto, esta atitude deverá ser sempre muito pontual e só em situações em que não se consiga controlar uma birra ou um comportamento perigoso e nunca por sistema. A via de incentivar os comportamentos adequados deverá ser sempre a preferida. As crianças que são sujeitas a violência acabam por se tornar também elas violentas para com as outras crianças já que esse é o modelo que aprenderam para resolução dos seus problemas. Também o que se verifica frequentemente é que depois de baterem os pais ficam com problemas de consciência e acabam por facilitar adoptando um comportamento que gera insegurança na criança.

Educar não é tarefa fácil, mas é fundamental para podermos praparar os nosso filhos para que possam vir a ter um comportamento socialmente bem aceite e a tornarem-se adultos responsáveis e conscientes dos seus deveres e direitos.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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