Temperamento e comportamento

Temperamento e comportamento

Tal como o amor, a disciplina também é fundamental na educação da criança, ajudando-a a conhecer os seus limites. É importante para a sua segurança e auto-estima. Intrinsecamente as crianças sentem que precisam de regras e disciplina – a criança que não é disciplinada é uma criança mimada, ansiosa e que não sabe com o que conta.


Ainda que a maioria dos pais perceba que é muito importante estabelecer limites, a maioria tem muita dificuldade em fazê-lo e este é um dos temas mais abordados na consulta de pediatria a partir do 1º ano de vida.
Disciplinar significa ensinar e não castigar – os castigos podem por vezes ser necessários e devem ser imediatamente após o mau comportamento que os motivou e adequados à idade da criança.

Por volta do 1º mês de vida já é muitas vezes possível distinguir um bebé irrequieto de um sossegado, o que poderá exigir dos pais uma adaptação individual. Se o bebé é muito sensível responde frequentemente aos estímulos com choro, com movimentos de hiperextensão do corpo ou desviando o olhar – no fundo é a forma do bebé comunicar aos pais que está a ser muito estimulado. Será necessário os pais aprenderem a lidar com o seu bebé, evitando diversos estímulos em simultâneo – cantar, falar, mudar a fralda, etc. Tudo isto em simultâneo poderá ser demais - há que ter calma e tranquilidade e fazer uma tarefa de cada vez e de modo sequencial, de modo a que o bebé se adapte aos diferentes estímulos.

Pelos 4 meses o bebé já interage, já faz habilidades para chamar a atenção- ri, vocaliza, pode manifestar uma certa atitude cautelosa em relação aos estranhos, como que a tentar compará-los com as pessoas que fazem parte do meio que está habituado. Pelo 5º mês aprendem a fazer determinados jogos de modo a chamar a atenção por parte dos adultos. No fundo podemos chamar a este tipo de comportamento um jogo manipulativo – por exemplo chora intencionalmente porque sabe que, em ocasiões anteriores, obteve uma resposta positiva. Os pais terão de perceber quando estão a ser manipulados ou quando existe na realidade algum motivo para o comportamento do bebé - terão de perceber se a criança chora de dor, de birra, de sono, etc. Será necessário os pais aprenderem a conhecer o seu filho de modo a que seja estabelecido um equilíbrio entre as necessidades de ambos e para que não sejam constantemente manipulados.

Por volta dos cinco meses é muito frequente o sentimento de abandono por parte da mãe que vai começar a trabalhar. A verdade é que nesta fase é mais difícil para a mãe assumir a separação do que propriamente para o bebé. Depois de feita a escolha do local onde o bebé vai ficar – creche ou ama/empregada - a adaptação deve ser gradual, sempre que possível (o bebé deve ir ficando por períodos progressivamente mais prolongados).
Por volta dos 7 meses o bebé sente-se como se fosse dono do mundo, cheio de auto-confiança, torna-se no foco de atenção de todas as pessoas que o rodeiam. Faz gracinhas, brinca com os brinquedos, atira-os para o chão olhando para o adulto para que este os apanhe e quando não consegue o seu objectivo ou desiste ou chora (sobretudo quando está habituado a ter sucesso).

Se já nos primeiros meses de vida é possível prever o tipo de personalidade da criança, sem dúvida, a partir dos sete meses, o seu modo de lidar com o meio que o rodeia expressa-se em pleno. E de que modo o podemos avaliar?
As características principais que podem definir o temperamento da criança são - nível de actividade e de perturbação, persistência, reacção à aproximação ou afastamento de pessoas estranhas, como reage aos estímulos – sorri, chora, não demonstra qualquer reacção? É possível estabelecer rotinas quanto aos seus hábitos alimentares e de sono? Como reage a alterações da rotina?
O conhecimento do temperamento de cada criança é muito importante para que os pais aprendam a conhecê-la e a perceber quando é que as suas reacções são previsíveis ou pelo contrário podem significar que não está bem.

Por volta do ano de idade a criança depende muito das pessoas e dos objectos que o rodeiam, sente-se perdida sem essas referências. Daí que percorra a casa a gatinhar ou a andar atrás do adulto para ter a certeza de que não está sozinho, pois não lida bem com as separações, inclusive na hora de deitar. Mas por outro lado também é a fase em que a criança se torna mais autónoma e começa a sentir uma grande ambivalência entre a necessidade de se tornar independente e a grande dependência dos que conhece, pelo que começa a testar os seus limites, mostrando-se teimoso, irritado. Se a tratarmos com firmeza estamos a ajudá-la a conhecer os seus limites o que a fará estar mais segura.

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É frequente os pais referirem que o filho, que sempre adormeceu sozinho na cama dele e que a partir desta idade faz grande resistência, põe-se de pé agarrado às grades, grita e chora na tentativa de que lhe peguem. É fundamental manter a calma e não ceder – a criança tem de perceber que não está sozinho mas que tem de adormecer sozinho. Mesmo que tenham de voltar ao quarto por várias vezes não devem pegar a criança ao colo - evitem o contacto físico, vão falando com calma e dizendo para dormir. Basta uma noite facilitar e adormecê-lo ao colo ou trazê-lo para a vossa cama para ser um verdadeiro tormento voltar a conseguir que adormeça sozinho.
Esta fase corresponde também aos períodos de sono rápido nocturnos durante os quais a criança como que visualiza todas as aquisições do dia. Por isso acorda com frequência 5 a 8 vezes por noite e deve reaprender a adormecer sozinha.
No que se refere a pessoas estranhas, a criança sente grande desconfiança, daí que recuse passar do colo dos pais para o de outro adulto: não quer pôr em causa o seu controlo do mundo que o rodeia e que já conhece e domina. A aceitação do estranho tem de ser gradual, inicialmente ao colo dos pais e dando tempo para que se ambiente.

A disciplina é certamente uma responsabilidade dos pais. Há que estabelecer limites firmes desde pequenos - na realidade as crianças lidam melhor quando sabem quais as regras a que estão sujeitas. A fase dos 9 meses é crucial, é a partir desta idade que os pais começam a queixar-se de que o “não” é a palavra mais pronunciada durante todo o dia. Há que começar a preparar-se para o negativismo característico do 2º ano de vida (12-24 meses) que se traduz pelo “não” constante sempre que são contrariados ou que não lhes é permitido manter a sua vontade. Há que saber lidar com as birras constantes. A criança tem necessidade de prender toda a atenção dos pais manifestando-a nas situações mais críticas – final do dia, quando há visitas, quando estão a tentar fazer o jantar, ao telefone ou a trabalhar ou ainda simplesmente a querer ver o noticiário! É a fase em que as birras acontecem nos locais públicos – e porquê? Porque a criança também está mais excitada, sabe que a atenção dos pais está desviada para outras coisas e quer chamar a atenção da única forma que consegue: choro e gritos! Nestas situações só poderão actuar de duas maneiras – ou pegar na criança e abandonar o local, mostrando-lhe que só volta ao local se não fizer birra, ou pura e simplesmente ignorando-a, deixando-a aos berros no chão, o que nem sempre é fácil. Depois há que se sentar com calma e explicar-lhe que teve uma atitude muito feia, com um tom de voz repreensivo.

Em casa, a criança precisa de ter o seu espaço para que possa explorar à vontade – embora tenhamos sempre que impor alguns limites. Não é boa conduta retirar todos os objectos de modo a que a criança não mexa ou não se magoe, mas pelo menos convém retirar os mais valiosos e aqueles que podem representar perigo. Não sou apologista de que se retire tudo - a criança tem de aprender a conhecer até onde pode ir, caso contrário, quando estiver num ambiente estranho, tudo será novidade e se não conhece limites certamente não será nessa altura que aceitará um “não”.
Os pais interrogam-se frequentemente se serão eles que estão a agir mal, a não saber educar o seu filho porque estão constantemente a contrariá-lo e a ser provocados por ele. Na maioria das vezes, a criança contraria a autoridade dos pais com coisas que não têm grande importância o que gera por vezes alguma indecisão quanto à atitude a tomar – ignorar? Ser firme? Distraí-lo com outra coisa? No entanto, se a criança sente esta indecisão tem tendência a repetir o seu comportamento. Os pais deverão guardar a disciplina para os assuntos importantes, caso contrário passarão o dia todo a dizer não e acabarão por se esgotar e facilitar precisamente quando não podem. Devem reservar uma atitude firme e decisiva para os assuntos realmente graves, de modo a que a criança sinta que tem de respeitar.

Os 15 meses representam geralmente o auge das birras - é a fase em que muitos se atiram violentamente para o chão na tentativa de causar ansiedade no adulto e assim conseguirem os seus objectivos. Costumo aconselhar os pais a não ligarem a este tipo de comportamento, a criança não se magoa, só quer chamar a atenção. Se facilitarem e correrem a acalmá-la, fará pior na vez seguinte. Fiquem tranquilos, que as crianças sabem onde caem e como caem - se a ignorarem e se afastarem irá perceber que de nada adianta este comportamento e tendencialmente irá abandoná-lo.
Esta fase também se caracteriza por comportamentos como morder, bater ou arranhar, quer as pessoas que conhece, como os estranhos ou outras crianças. Estas atitudes podem corresponder a comportamentos exploratórios, mas também de descarga de ansiedade, como se não conseguissem controlar o seu contentamento. Terão de ser controlados e impedidos de o fazer; com calma, mas com determinação. A criança tem de perceber que não as pode ter, há que demonstrar o desagrado e a desaprovação fazendo entender de modo firme, agarrando-lhe as mãos e/ou colocando-o no chão e falando-lhe com um tom repreensivo. Só depois de ele se acalmar é que poderá voltar a brincar.
A criança trata geralmente a mãe e o pai de modo diferente desde os primeiros meses, geralmente é mais desafiadora e mais dura para o que passa mais tempo com ela e mais dócil e simpática para o que vê menos. A verdade é que o que está mais tempo com a criança tem um papel mais ativo na disciplina, enquanto que o outro muitas vezes representa a brincadeira. Há que encarar esta diferença de comportamento como normal, mas é fundamental que ambos adoptem a mesma estratégia no que se refere à disciplina e às regras.
Se a criança não sabe com o que conta, se as regras mudam consoante as pessoas ou mesmo com o mesmo adulto, vai tentar sempre testar os limites com o objectivo de conseguir manter a sua vontade.

Na próxima semana falaremos do comportamento da criança entre os 2 e os 6 anos de idade.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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